?Doutor, vou sentir dor? ?, está é uma pergunta muito frequente pelos pacientes momentos antes de um procedimento cirúrgico, a dor no pós-operatório é um tema muitas vezes esquecido no planejamento cirúrgico no consultório. Dimensionar e quantificar a dor que um paciente poderá sentir após uma cirurgia é tarefa árdua e quase impossível, porém possuímos hoje estratégias terapêuticas para minimizar ao máximo essa experiência que pode ser muito desagradável para o paciente.
A dor aguda é uma complexa reação fisiológica às agressões geradas pela lesão tecidual cirúrgica, ou causada pela própria doença de base e sua intensidade depende de vários fatores: local e duração da operação, tipo de acesso cirúrgico, porte da cirurgia e intensidade do trauma cirúrgico, operações prévias, tipo e técnica anestésica, estado físico, nutricional preparo pré-operatório e aceitação psicológica e emocional do paciente.
Desta forma, o tratamento efetivo para controle da dor deve ser adaptado à intensidade, às características e à natureza da dor e todos os fatores acima citados. Não existem modelos fixos, como ?receita de bolo? de analgésicos e anestésicos iguais para todos os pacientes. O medicamento de escolha será o produto mais eficaz e o melhor tolerado para cada caso
Tipos de anestesia
Alguns estudos mostram que as técnicas anestésicas podem influenciar a resposta neuroendócrina ao estresse cirúrgico e à dor. A anestesia regional, especificamente a anestesia peridural pode bloquear a resposta neuroendócrina à cirurgia. Técnicas anestésicas regionais, com inserção de cateter que permaneça no pós-operatório, também promovem uma excelente analgesia neste período. A anestesia intercostal e peridural pode melhorar a função respiratória, em cirurgias torácicas e abdominais.
Outra estratégia é a infiltração direta na incisão ou um bloqueio com anestésicos locais é um método efetivo e seguro de minimizar a dor pós-operatória. A analgesia irá durar de acordo com as características farmacocinéticas do anestésico local.
Analgésicos orais
Muitos pacientes que possuem dor leve à moderadas podem ser tratados com inibidores da ciclooxigenase, opioides orais ou com uma combinação, no pós-operatórios de cirurgias ambulatoriais, pequenos procedimentos ou na alta hospitalar. Além disso, os analgésicos não-opioides se apresentam com bons resultados na analgesia pós-operatória em dores de pequena ou de média intensidade.
Analgésicos parenterais
Muitos pacientes com dor pós-operatória moderada à severa requerem analgésicos parenterais (intravenoso) durante os primeiros dias após a cirurgia. Quando o paciente for capaz de assumir uma ingesta oral e a intensidade da dor diminuir, os analgésicos orais são iniciados. Dentre os analgésicos parenterais, estão incluídos os AINES, os opioides entre outros.
Risco de overdose por opioides
Nos Estados Unidos, é bastante comum médicos e dentistas receitarem opioides para que seus pacientes possam controlar a dor, mesmo depois de procedimentos comuns, como extração dentária ou pequenas cirurgias. Esse hábito rotineiro pode contribuir para que um paciente desenvolva dependência de opioides. A taxa de mortalidade causada por abuso de opioides (medicamentosos ou ilícitos) aumentou de tal forma que hoje as autoridades de saúde americana consideram uma epidemia e problema de saúde pública.
A família dos opioides inclui drogas ilegais, como a heroína e o fentanil produzido de forma ilícita, além de substâncias analgésicas usadas em tratamento médico, como a oxicodona, tramadol e codeína. Medicações que contenham estas substâncias em sua composição devem ser prescritas por profissional habilitado e para tratamento específico. Não são medicações que devemos ter em casa para uso emergencial ou esporádico para segurança do paciente e sua família.
Analgesia multimodal
É uma técnica que visa o alívio da dor através da associação de fármacos e técnicas analgésicas. Envolve a administração combinada de anti-inflamatórios, opioides, e outros fármacos que agem em diferentes locais tanto nas vias centrais quanto nas periféricas do sistema nervoso. A finalidade dessa associação é melhorar o controle de dor evitando os efeitos adversos. O uso da analgesia multimodal no controle álgico é um pilar fundamental hoje para recuperação cirúrgica e retorno precoce as atividades de trabalho físicas rotineiras. A analgesia multimodal deve ser ajustada para suprir as necessidades individuais de cada paciente, levando em consideração seu histórico médico, doenças associadas, tipo da operação proposta e experiências prévias relacionadas ao manuseio tanto da dor crônica quanto da aguda.
O controle eficiente da dor é fundamental em todo procedimento cirúrgico e permite não apenas o conforto do paciente, mas, também a redução de complicações e retorno normal e mais breve de suas atividades. Uma experiência de dor desagradável compromete todo o resultado cirúrgico e esta sensação ruim não pode ser dissociada do ato cirúrgico em si. É muito importante que o paciente forneça o máximo de informações sobre seu estado de saúde, hábitos, alergias e uso de medicações e substâncias mesmo que esporádicas para a equipe médica, informe suas dúvidas, apreensões e inseguranças.
A satisfação do paciente, por mais subjetiva que seja a sensação de dor, é fundamental para que seja criado um elo de confiança entre o paciente, cirurgião e anestesista.
Referências e leitura adicional:
1. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1806-00132013000100015
3. Sociedade Brasileira de Anestesiologia ? https://www.sbahq.org
4. https://veja.abril.com.br/mundo/tragedia-americana-opioides-matam-mais-do-que-os-massacres/